Como foi fazer um mochilão de três meses pela Ásia com o meu pai

Já que a maioria de nós está em casa e procurando tudo o que for possível para se entreter, a gente separou histórias incríveis de viajantes para você se inspirar e viajar do seu quarto! 

Uma das maiores aventuras que você pode viver é mochilar pela Índia. Para tornar essa aventura ainda mais louca, convide seu pai. Foi isso que eu fiz, e o meu, por incrível que pareça, disse sim.

Dentre os milhares de sonhos que eu tinha e ainda tenho, ir para a Ásia é um que me acompanha desde muito tempo.

Depois de alguns meses morando e trabalhando na Europa, onde as passagens aéreas são muito mais acessíveis que no Brasil, eu tive a certeza de que era hora de colocar minha mochila nas costas e partir em busca de algo que eu não sabia direito o que era, mas que sempre esteve do lado oposto do meu mundo .

Já faziam quase dois anos que eu estava fora de casa, e quando liguei para os meus pais para contar da nova aventura que eu planejava, eles acabaram se empolgando mais do que eu. Eu os convidei, e disse que adoraria ter companhia, apesar de ter amado todas as viagens sozinhas que já fiz. Eles analisaram as possibilidades e as questões de tempo e dinheiro – os maiores problemas de todo o mochileiro, sabemos bem disso.

Como o meu pai é autônomo, passar três meses viajando não seria um problema tão grande assim. Ele aceitou e, um pequeno detalhe: seria a primeira vez dele fora do Brasil! Passaria de nunca ter viajado para o exterior, para três meses intensos pela Ásia.

Esperei ele comprar as passagens para Londres, onde nos encontraríamos,  e então comecei a planejar tudo. Passagem, visto, seguro de saúde e as vacinas necessárias. O roteiro eu decidi deixar bem aberto. Índia era o destino que não podia faltar, mas eu queria aproveitar e visitar outros lugares. Analisamos o mapa da Ásia e até pensamos em fazer a região sudeste, mas meu pai não podia se ausentar por tanto tempo e essa viagem seria mais longa.

Já fazia um tempo que eu andava encantada pelo Nepal, e achei que seria a combinação perfeita. Londres- Nepal, e de lá atravessar a fronteira para a Índia. Depois surgiu a ideia de terminar o mochilão na Turquia, até mesmo para dar uma amenizada nas longas horas de avião e não ficar tão puxado para o meu pai.

A primeira parada foi Kathmandu, a capital do Nepal. Ao chegar, dentro do táxi saindo do aeroporto, já deu para ter uma ideia de todo o choque cultural que iríamos encontrar.

Me lembro das duas primeiras coisas que mais me impressionaram: a quantidade de pessoas nas ruas e o barulho insistente de buzina. Muita gente usando máscara de proteção de tão poluído que era o ar. O trânsito é caótico, e a falta de semáforos e faixa de pedestres tornam a travessia uma prática desafiadora, mas que você acaba ficando craque depois de alguns dias por lá.

O Nepal é um país pequenininho, e tínhamos separado 15 dias inteiros para ele, para poder chegar na Índia a tempo do festival Holi.

Os primeiros templos que visitamos em Kathmandu já me trouxeram a certeza de estar no lugar certo. Os três que eu consegui ir e que são absolutamente imperdíveis são Boudhafnath, Pashupatinath e o templo dos macacos. Dá para sentir bem a filosofia budista que os nepaleses seguem, influência também dos refugiados tibetanos que moram por lá.

Depois de alguns dias em Kathmandu, resolvemos conhecer outras cidades do Nepal. Passamos por  Bhaktapur, cidade dos templos e que infelizmente foi muito afetada pelo terremoto de 2015. De lá seguimos para Nagarkot, uma vila no meio das montanhas do Himalaia, onde encontramos paz.

Também fomos para Pokhara, de onde começam os caminhos para as montanhas da Cordilheira do Himalaia. A visita ao Parque de Chitwan foi, para mim e para o meu pai, um dos pontos altos da viagem. Ali fizemos um safári para ver rinocerontes, tigres, ursos e crocodilos. Meu pai mora em uma fazenda, ama natureza e impressionou os demais pelos olhos atentos, que acharam de longe todos os bichos que vimos. A última cidade no Nepal foi Lumbini, onde Buda nasceu, e que fica bem perto da fronteira com a Índia.

O Nepal tem de longe uma das energias mais mágicas que eu já senti em toda a minha vida. É um povo de fato espiritualizado, que pratica muito bem o principal pilar de qualquer religião: a generosidade. Foi maravilhoso poder vivenciar essa experiência de se desarmar de tantos pré conceitos que nós, ocidentais, acumulamos pela vida.

Antes de viajar, muitas pessoas nos alarmaram dos perigos que esses países, que são tão poluídos, apresentam. É preciso ter muito cuidado com tudo que é consumido, inclusive a água engarrafada. Comida de rua, me disseram, nem pensar. Mas quase tudo é vendido na rua, e escapar de um “probleminha” estomacal é quase impossível. A comida é muito diferente, bem apimentada e totalmente vegetariana. Para achar restaurante com carne, e só de frango, você tem que ralar.

Na Índia é ainda mais difícil, com mais pimenta, e muita sujeira por todos os cantos. Sujeira mesmo, e eu falo de esgoto correndo nas ruas por onde a gente passa, animais por todos os lados revirando lixos, e muitas vezes ratos andando pelas ruas.

Isso tudo fez com que meu pai simplesmente perdesse o apetite. E esse foi o nosso maior problema durante toda a viagem. Não comer significa se sentir cansado, sem vontade e nem força de caminhar, o que é incompatível com a proposta de um mochilão bem alternativo como era o nosso. O meu pai se sentiu mal diversas vezes, a ponto de desmaiar, e no total foram 18 quilos perdidos quando estávamos por lá. Sem supermercado, como os que estamos acostumados por aqui, o que nos salvou foram as frutas vendidas nas feiras de rua.

A Índia foi, sem dúvidas, o lugar mais desafiador, por diversas razões. E hoje eu entendo por que queria tanto ir para lá. É uma cultura exalante que entra por todos os poros do seu corpo, e eu ouso dizer que não te deixa jamais. Foram 45 dias viajando pelo país, conhecendo, andando muito, pegando trem, ônibus, tuk tuk.

Chegamos na Índia por Varanasi, a cidade sagrada dos indianos. As águas do rio Ganges levam vidas e trazem paz, e me trouxeram também a certeza de ter chegado muito mais longe do que eu e meu pai poderíamos um dia imaginar. De Varanasi até Mumbai, último destino na Índia, foram doze cidades: Agra, Deli, Rishikesh, Jaipur, Pushkar, Jaisalmer, Udaipur, Bundi, Indore e Aurangabad. E viajar tudo isso por lá é muuuito cansativo, porque 500km significam 12 horas no trem, ou um ônibus que chacoalha o caminho inteiro.

Eu tentei amenizar as dificuldades pelo caminho, principalmente as de transporte, para oferecer para o meu pai o mínimo de conforto. Descobri a opção de ônibus com camas, que são bem mais caros que trem e ônibus normal, mas que resolveram o problema das grandes distâncias que eu fiz questão de percorrer por terra. Eu já tava acostumada a mochilar, me viro bem nos perrengues que aparecem por aí, mas era a primeira vez que meu pai viajava para fora do país, e a jornada acabou sendo muito mais radical do que a gente pensava.

A todo momento, eu dizia para ele me lembrar que eu, com 26 anos, tinha energia para coisas que talvez ele, com seus 56, já não tivesse mais. Meu pai já viveu muitas coisas quando tinha a minha idade, mas eu ainda quero experimentar todas elas. E, naquele momento, a gente entendeu que os dois tinham que ceder, mas que viver isso juntos valia a pena qualquer esforço.

Meu pai reclamava, mas nunca deixou de me acompanhar. E, em muitos momentos, como aquela noite que dormimos na areia do deserto olhando as estrelas, eu tão pequena, me senti a pessoa mais feliz do mundo por ter ele do meu lado naquele novo mundo tão imenso.

Quando chegamos na Turquia, era como se a realidade estivesse de volta. Apesar de ter uma cultura muito diferente da nossa, o país e as pessoas se parecem mais com a gente do que os indianos e nepaleses. O meu pai se encantou pela comida (ufa), e se sentiu bem a vontade viajando por lá. Quinze dias foram o suficiente para conhecer bem Istambul, ir para a Capadócia e passear pela costa perto de Selçuk. Tudo por lá é mais caro, e, como ja estávamos viajando há um tempo, tivemos que dar uma segurada.

Em Goreme, na Capadócia, eu queria me hospedar em uma caverna, e a opção viável para isso foi ficar em um hostel, em um quarto compartilhado. Saiu 25 reais a diária por pessoa, com café da manhã. E meu pai amou. Conhecemos um monte de gente de vários lugares do mundo, e eles se encantaram com a ideia dessa viagem de pai e filha.

Muitos me diziam que jamais conseguiriam viajar com seus pais, e a pergunta mais frequente era se a gente brigava. Mas é claro que sim gente! Viajar, com quem quer que seja, é sempre um desafio. Eu considero uma convivência muito intensa e muito diferente de qualquer outra. É enfrentar o mundo, e a nós mesmos. E isso significa um monte de situações novas que a gente tem que descobrir como lidar no meio do caminho. Comida, língua, cheiro, cor, gente. E toda a complexidade que isso carrega.

Eu e meu pai nos enfrentamos, nos questionamos e, mais do que isso, nos transformamos. Muito do que a gente pensava que sabia foi por água baixo, dando espaço para tudo que a gente viu e viveu ficar guardado para sempre na nossa memória, e com certeza mudar a nossa história. Todos os dias, antes de dormir, dividimos a sensação de ser duas pessoas completamente diferentes daquelas de antes do embarque. A questão era como encaixar todas essas mudanças no dia a dia, em qualquer lugar do mundo que estivéssemos.

Acho que vamos bem. Nossa relação hoje tem um pouco de tudo isso. De pai e filha, companheiros, amigos, sonhadores. E eu gosto mesmo é de saber que os nossos olhos e corações compartilharam momentos que palavra nenhuma no mundo seria capaz de explicar.

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📚 Sobre a Autora 📚

Marina, 26 anos, jornalista, apaixonadissima por viagens e feliz em qualquer lugar do mundo. Amante da natureza, e não pode imaginar a vida sem um cachorro do lado! Você pode seguir suas aventuras no Instagram @marinawg.

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