A incrível livraria do Senhor Fumaça na Rua da Alegria
Já que a maioria de nós está em casa e procurando tudo o que for possível para se entreter, a gente separou histórias incríveis de viajantes para você se inspirar e viajar do seu quarto!
Quando ouvi falar da história da livraria Fumaça, pensei no filme 84 Charing Cross Road, e achei curioso como histórias muito peculiares podem acontecer do lado da nossa casa.
Assistindo esse tipo de filme onde alguém conhece outro alguém incrível pelo caminho que ensina grandes lições de vida, a gente pensa que isso nunca acontece de verdade. A ideia é de que no máximo vamos conhecer algumas pessoas da nossa idade de outros países e vamos compartilhar alguns pratos diferentes e expressões engraçadas. De fato, todas as minhas viagens foram assim, até eu começar a ver as cidades como uma espécie de livro aberto com muitas passagens escondidas que só se vê quando se está muito atento.

No ano passado, decidi morar em Lisboa. A cidade sempre me atraiu por ser um lugar que parece que parou no tempo. Todas aquelas pequenas coisas perdidas na modernidade são abundantes em Lisboa e eu sempre senti que muitas histórias estavam ali, só esperando para serem descobertas.
Nessa mesma época comecei a trabalhar no ArtBeat Rooms, um Hostel no centro de Lisboa, e comecei ouvir diariamente histórias de vida incríveis de viajantes que procuravam a sua própria verdade na cidade. Mulheres viajando sozinhas pela primeira vez, brasileiros conhecendo outro país pela primeira vez, artistas buscando novas oportunidades – um hostel é sempre cheio de sonhos e pessoas dispostas a compartilhar com quem tiver um ouvido amigo. Toda essa inspiração me fez ficar ainda mais atenta para essas histórias de vida maravilhosas que toda pessoa tem a compartilhar.
Quando me mudei para a Rua da Alegria, eu e meus colegas de casa achávamos muito engraçado que morávamos numa rua com esse nome tão feliz, quando na verdade estávamos passando por um dos momentos mais tristes e desafiantes das nossas vidas. Parecia que alguma coisa tinha se perdido e a gente procurava um propósito em uma cidade que simplesmente não conseguia atender nosso pedido.

No meio de todas as caminhadas por essa Lisboa tão melancólica, uma amiga passou pela frente de um prédio abandonado que tinha uma folha colada na parede escrito “Vendem-se Livros.” Coincidentemente esta livraria ficava na rua da nossa casa e ela decidiu entrar. Ali dentro ela descobriu um senhor de mais de 80 anos que mantem sozinho uma livraria funcionando com um catálogo feito a mão. O senhor Fumaça não podia ser mais orgulhoso do que ele construiu e ele conta para todos os visitantes a sua história de vida: começou a vender livros com 13 anos, foi até jogador de futebol, mas a paixão pelos livros sempre foi mais forte. Muito dos livros que ele vende tem uma história por trás, além de falar sobre o enredo, Seu Fumaça fala de como conheceu aquele autor pessoalmente e demonstra alguns dos seus desafetos literários passados.

A história da livraria do Seu Fumaça começou a trinta anos atrás quando ele decidiu reunir um catalógo de livros portugueses e internacionais em uma pequena locação de um bairro nobre lisboeta. Você realmente encontra de tudo por lá, principalmente livros que você jamais encontraria em outro lugar. Todas as vendas são anotadas em um livro enorme, daqueles estilo Harry Potter, e por ali que ele também controla quais livros ainda estão no estoque.
No dia que visitei a livraria, expliquei que meus amigos tinham ido na semana anterior e me falaram que eu tinha que conhecer esse lugar. Ele se refereriu a um deles como um menino com um pedaço de madeira embaixo do braço. Pensei: ele só pode estar falando do meu amigo italiano que anda de skate. O Seu Fumaça tem muita história pra contar e adora conversar sobre o seu passado, a livraria e sua paixão por livros. Ele me contou que o apelido dele vinha do fato dele estar sempre com um cigarro de palha na boca. Apesar dos seus 80 anos, Seu Fumaça trabalha quase todos os dias e não quer nem pensar em colocar o seu negócio na internet. Ele me disse que teria como começar tudo de novo, mas, se ele está no fim, porque iria querer começar tudo de novo?

Claro que nem tudo são flores, o prédio em que a livraria fica é MUITO antigo mesmo e tem muitos problemas na sua estrutura. Sempre que chove, que é basicamente sempre no inverno de Lisboa, a água entra e ele tem que fazer o melhor que pode para salvar os livros. Ele nunca pensa em desistir e você sente no seu discurso que aquele trabalho é quase uma missão de levar mais literatura para as pessoas.
Terminei minha visita pedindo indicação de um livro português que ele gostasse e quando perguntei quanto custava ele disse, custa quanto você quiser pagar. Entrar ali é como uma viagem no passado onde as coisas são de uma pureza quase infantil e não há espaço para desacreditar a demonstração concreta do que uma verdadeira dedicação ao longo de uma vida inteira pode inspirar.
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