Viaje pelo Brasil através da cachaça
Este é um guest post da Giuliana Wolf, jornalista do Quintal da Cachaça.
Se viajamos para Dublin, corremos para tomar as cervejas irlandesas; se vamos para a Itália, tentamos visitar o máximo de vinícolas possível; em Portugal, nos deliciamos com o vinho do Porto; se o destino é a Escócia, as destilarias de uísque a visitar tomam dias do nossa programação; se somos brasileiros e valorizamos nossa história, queremos conhecê-la e degusta-la ainda melhor, então, corremos para os alambiques mais próximos que produzam cachaça artesanal!
Estranhou? Sim, a cachaça artesanal está no imaginário brasileiro, porém nem sempre é vista a partir de sua história e cultura. Se por um lado, os rótulos mais comuns, encontrados no mercado, quase nunca contam essa história, os alambiques espalhados pelo Brasil estão recheados delas. Muitas cachaças acabam representando momentos importantes da região e até mesmo do país, e nada melhor do que poder ver um pouco disso de perto – e ainda provar uma infinidade de tipos de cachaça.
Para comemorar o Dia Nacional da Cachaça, no dia 13 de setembro, separamos algumas cidades e alambiques para conhecer durante viagens pelo Brasil. Como muitos deles ficam em regiões rurais, é mais simples ficar em alguma cidade próxima e maior, e fazer passeios de um dia ou meio dia para visitar cada um deles. Ah, mas isso aqui é só um começo, já que o país tem mais de 40 mil alambiques!
Paraty, Rio de Janeiro
Cachaça era bebida de escravo, até cair no gosto de todos os brasileiros, na época do Brasil colônia. Se vendia tanto da bebida, que houve um declínio significativo do consumo do vinho e da bagaceira, aguardente portuguesa. A Coroa decidiu, então, proibir a produção e o consumo da cachaça em todo o Brasil, com exceção do estado do Pernambuco e dos escravos, que ainda poderiam tomar da bendita. A medida, no entanto, ao invés de coibir o seu consumo, fez com ela virasse um símbolo de patriotismo.
Nessa época, era pelo porto de Paraty que o ouro tirado das minas do Brasil era enviado a Portugal, e também era ali que aportavam os navios trazendo escravos, portanto, o movimento ali era intenso. Nesse período, Paraty chegou a ter 120 alambiques, o que, em pouco tempo, fez com que a cidade se tornasse sinônimo de cachaça, se tornando comum pedir por um “cálice de paraty”. Hoje, ainda com tradição muito forte na produção de cachaça, Paraty tem sete alambiques, todos abertos para visitação. Cada um, a sua maneira, guarda peculiaridades e histórias que merecem ser conhecidas de perto e revelam a riqueza cultural da cachaça.
Não deixe de conhecer a cidade e ficar em um hostel em Paraty.
– Cachaça COQUEIRO
Foto: Giuliana Wolf
Um antigo casarão, cercado pela Mata Atlântica, foi o local escolhido por dois irmãos para ser o engenho e alambique que sempre sonharam criar. Ali, no ano de 1999, nascia a Paratiana. Hoje a cachaça é muito reconhecida na região e possui, como todos os outros seis alambiques da cidade, o Selo de Indicação Geográfica de Procedência. Em uma visita, pode-se conhecer o processo de produção, ver a sala onde a cachaça envelhece e, claro, passar na lojinha do local e levar algumas cachaças e doces típicos para casa.
– Cachaça MARIA IZABEL
A Cachaça Maria Izabel é, possivelmente, a mais famosa de Paraty. Além de ser produzida desde o século 19, a própria Maria Izabel é uma pessoa que vale a pena conhecer. De uma simplicidade e calma ímpares, ela faz questão que todos provem sua cachaça durante uma visita a seu alambique, enquanto conta histórias de família e de cachaça. Uma das mais interessantes, ela conta como se fosse algo “rotineiro”: o rótulo que estampa suas garrafas leva a ilustração de Jeff Fisher, quem também criou as capas da franquia Harry Potter. Mas isso, de fato, é só detalhe, porque ali o que mais importa são as cachaças!
Ivoti, Rio Grande do Sul
Apesar das regiões mais famosas pela produção de cachaça serem Minas Gerais e a Paraíba, muita coisa tem recebido mais notoriedade agora que a cachaça entrou de vez na vida (e no bar) do brasileiro. E Ivoti, no Rio Grande do Sul, é um ótimo exemplo disso. Os dois alambiques dessa cidade, que fica na região metropolitana de Porto Alegre, têm tradição e têm investido bastante tanto na própria bebida, quanto na divulgação dos atrativos turísticos da região. E o melhor: quem vai, não se arrepende!
Ivoti fica a 53km de Porto Alegre. Veja hostels em Porto Alegre.
– Cachaça WEBER HAUS
A família Weber Haus veio da Alemanha como imigrantes colonizadores e logo começou a produzir cachaça para consumo próprio, em 1848. Desde então, a família nunca mais parou sua produção, iniciando sua comercialização em 1948 e a padronização em 1968. Em uma visita, é possível encontrar o primeiro barril de armazenamento de cachaça da família, assim como a primeira moenda movida a mula. No entorno do alambique estão construções originais em estilo enxaimel, uma das mais antigas do Rio Grande do Sul. Além de produzir a cachaça que carrega o nome da família, eles também produzem a Cachaça Lundu, que não é artesanal, mas industrial.
– Cachaça YAGUARA
A Cachaça Yaguara surgiu da paixão da família Meneghel pela nobre bebida brasileira. Desde 1902, quatro gerações já se dedicaram a aperfeiçoar as técnicas de produção da cachaça. Serafim Meneghel, da terceira geração, no entanto, teria um dom especial na preparação da bebida – que seria passado para seu neto, hoje quem está a frente da Cachaça Yaguara. A visita vale a pena para conhecer um cenário histórico, além de provar uma cachaça cuja produção é bastante diferente das outras. Apesar de não ser envelhecida, ela é feita a partir de um blend, o que ainda não é tão comum no mundo das cachaças.
Pirassununga, São Paulo
Apesar de Pirassununga ser mais conhecida por suas cachaças industriais, tem grande importância por sua produção artesanal de cachaça – hoje a cidade tem mais de 50 alambiques. Ainda que para ser, tecnicamente, considerada como cachaça a bebida só possa ter como ingrediente o mosto (caldo) da cana-de-açúcar, como em Pirassununga a concorrência sempre foi grande, cada produtor, aos poucos, criou sua própria técnica para se diferenciar. As histórias vão desde barris enterrados há mais de 150 anos – alguns até hoje “escondidos” – até colocar animais dentro da garrafa para curtir com a bebida.
Para conhecer essa história de perto, nada como visitar Pirassununga, que fica a 120km de Campinas, e 213km de São Paulo. Veja hostels em São Paulo.
– Cachaça SCHERMANN
Apesar de existir desde 1899, a marca Cachaça Schermann só passou a ser registrada em 2008. Antes disso, ela era comercializada a granel. O mais interessante é que a bebida nunca deixou de ser produzida ou teve um hiato, desde o início. E a responsável por isso ainda é a mesma família que iniciou sua produção, os italianos Scherma, que chegaram no Brasil e, como muitas outras famílias, foram para o interior de São Paulo trabalhar nas fazendas de café.
– Cachaça ENGENHO PEQUENO
Em 1945, a família Foltran chegava a Pirassununga. Pioneiro, Laurindo Foltran comprou uma antiga propriedade de café e iniciou sua produção de cachaça. A bebida se estabeleceu na região e se tornou bastante popular, até sua última safra, em 1987. No entanto, em 2007, a produção foi retomada, agora em um novo engenho artesanal.
– Cachaça SAPUCAIA
Apesar de ter sido criada em Pindamonhangaba, durante a década de 1930, hoje há uma filial da Cachaça Sapucaia em Pirassununga, construída em 2012. Para lá foram levados todos os tonéis de envelhecimento – a marca tem cachaças que passaram até mesmo 18 anos envelhecendo.
Betim, Minas Gerais
Sugerir uma cidade para visitar em Minas Gerais para tomar cachaça não é uma missão das mais fáceis. Mesmo assim, temos um palpite bom e que vale a pena acreditar: Betim, pertinho da capital, construiu uma forte história com a cachaça, cuja protagonista é a Cachaça Vale Verde.
Betim fica a 32km de Belo Horizonte. Fique em um hostel em Belo Horizonte.
– Cachaça VALE VERDE
Quando dizemos que cachaça e cerveja combinam, é a mais pura verdade. Prova disso é o fundador da Vale Verde, Luiz Otávio Pôssas Gonçalves, que foi também quem fundou a cerveja Kaiser. Inspirado pelos segredos da fermentação e destilação utilizados na produção de uísque, no início da década de 1980, ele foi para a Europa encontrar mais informações sobre os métodos utilizados. Tudo isso para que, em 1985, ele abrisse sua própria produção. A bebida escolhida foi a cachaça e o uísque acabou sendo só a inspiração.
Toda a história é muito boa, mas o melhor de tudo é que no alambique dá para ver isso de perto. É possível caminhar por entre os dois mil barris espalhados pelo galpão do alambique. É ali que a cachaça passa três anos envelhecendo antes de ser engarrafada. O lugar, ainda por cima, tem um museu da cachaça, referência em Minas Gerais – e se preocupa até mesmo com questões ambientais, por isso adotou práticas sustentáveis.
Chã Grande, Pernambuco
Apesar de não receber tanta atenção quando o assunto é cachaça, Pernambuco pode te surpreender. Um dos principais diferenciais dos alambiques nordestinos é que muitos deles envelhecem cachaça em madeira de freijó, algo mais raro de se ver no sudeste e no sul do Brasil. E Chã Grande, no leste do estado e conhecida por seu clima ameno no inverno, tem um lugar que não só utiliza madeira de freijó, como tem outras particularidades também.
Chã Grande fica a cerca de 84km do Recife. Veja hostels em Recife.
– Cachaça SANHAÇU
A famílita Barreto Silva de dedica à agricultura desde 1993, no entanto, só em 2008 lançou sua primeira cachaça, a Sanhaçu. A “espera” valeu a pena, já que essa se tornaria a primeira cachaça orgânica do Pernambuco! A produção da família envelhece a bebida em diferentes tipos de madeira, mas a que mais se destaca, sem dúvida, é a que passa um tempo na madeira de freijó.
Em uma visita, além de provar a cachaça e alguns doces típicos, é possível fazer um passeio pelas redondezas, já que a família também se preocupou com a recuperação da fauna e flora nativa da região. Além disso, a fazenda é equipada com um sistema de energia renovável, como a eólica e a solar – e, inclusive, recebeu o certificado de carbono zero.









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