Entrevista com Graham Hughes – Parte I

Este é Graham Hughes, a primeira pessoa a visitar todos os países do mundo sem nunca ter entrado num avião. Natural de Liverpool, vive agora na sua própria ilha privada ao largo da costa do Panamá, que ganhou num programa de televisão ao estilo do «Survivor». Conversámos com ele sobre viajar em navios de carga, comer polvo vivo e manter-se dentro da lei.

Hostelworld: Tens alguma dica para conhecer pessoas quando viajas?

Graham Hughes: Como estava a viajar pelo mundo sem apanhar aviões, passei muito tempo nos transportes públicos, o que torna sempre a viagem fascinante. Se estiveres com outras pessoas e fores o único ocidental no autocarro ou no comboio, vais ser o centro das atenções. Às vezes, quando se está cansado e mal-humorado, não se tem muita vontade de ficar a conversar com as pessoas, mas na maioria das vezes é uma forma absolutamente fantástica de conhecer gente, porque se está sentado ao lado delas durante horas – mais vale dar uma conversinha e descobrir o que fazem e o que pensam do seu país e do mundo. Ficas com uma perspetiva fantástica que nunca obterias lendo um guia de viagem ou um blogue.

HW: Qual foi o país mais acolhedor que visitaste?

GH: Uma coisa que me impressionou ao longo da viagem foi o quão simpáticas as pessoas são em todo o mundo – até em Londres! Viajei durante muito tempo por muitos países e não tive qualquer problema com outras pessoas. Tive alguns problemas com a lei umas duas vezes, mas no que diz respeito às pessoas, não me envolvi em brigas, não me envolvi em confusões, nem sequer me roubaram nada. Por isso, não sei se sou apenas muito, muito sortudo, ou se o mundo é um pouco mais amigável do que pensamos.

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HW:Que país gostarias de voltar a visitar e porquê?

GH: O Irão – foi incrível o quanto as pessoas lá eram simpáticas. Abordavam-me na rua e tentavam levar-me para casa para me prepararem o jantar, oferecerem-me um lugar para passar a noite, certificarem-se de que eu apanhava o comboio certo. Estava à espera que fosse bastante conservador, como a Jordânia ou a Arábia Saudita. Na verdade, não há nenhum lugar no mundo para onde não gostasse mesmo de voltar, mesmo alguns lugares onde talvez não tenha tido uma experiência fantástica – gostaria de lhes dar uma segunda oportunidade.

HW: Tiveste vários problemas com a lei, não foi?

GH: Sim, a maioria ocorreu na África Ocidental. Meti-me em sarilhos algumas vezes na Guiné e nos Camarões. Também fiquei detido durante seis dias numa cela da polícia em Cabo Verde, mas isso foi, de certa forma, culpa minha, porque apareci num barco com 10 pescadores senegaleses. Eles pensaram que eu estava a tentar contrabandear imigrantes ilegais para o país. Quando me meti novamente em sérios problemas, estava no Congo. Tinha passado dois dias infernais a viajar pelo Congo numa estrada de terra batida. Cheguei à capital, Brazzaville, à noite, e a polícia mandou-me parar; perdi a paciência com eles e acabei por passar mais seis dias numa esquadra. Foi bastante sombrio. Chegou a um ponto em que pensei que não ia conseguir sair daquela situação. Mas, por fim, deixaram-me ir. Aprendi uma lição muito importante para quem viaja: basta continuar a sorrir. Basta dizer «sim, senhor agente, como quiser».

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HW: Qual foia tradição ou o costume local mais estranho com quete deparaste?

GH: No Uzbequistão, gostam de comer cabeça de carneiro cozida – é uma iguaria por lá. Aparentemente, oferecem os olhos aos visitantes porque são a melhor parte, mas eu recusei-me a comer olhos de carneiro. No entanto, comi um polvo vivo na Coreia do Sul, o que foi estranho, mas fantástico. Ele meio que se contorce na boca enquanto o estás a comer. Tecnicamente, não está realmente vivo – já foi cortado, mas os tentáculos continuam a contorcer-se por conta própria. É como comer um prato de minhocas a contorcer-se. É suposto mergulhá-lo em molho de soja e óleo para impedir que as ventosas se prendam ao esófago e te façam sufocar. Acho que já houve algumas pessoas que morreram assim.

HW: O que farias de forma diferente?

GH: Muitas coisas! Teria uma pessoa dedicada a ajudar-me nos bastidores. Tive os meus amigos e família a ajudar-me, a gerir o site, a arranjar-me boleias em navios de carga, coisas desse género — mas eles tinham empregos a tempo inteiro e famílias com que se preocupar. Fizeram um trabalho incrível, tendo isso em conta! Também acho que, se voltasse a fazê-lo, seria capaz de o fazer muito mais depressa agora, porque, na maioria das vezes, não sabia para onde ir. Não havia ninguém para abrir caminho antes de mim, por isso, às vezes, contava apenas com a informação que encontrava na Internet ou nos guias de viagem, e, por vezes, essa informação estava desatualizada ou errada. Por exemplo, passei seis semanas no Kuwait porque pensava que havia um ferry que ia do Kuwait para o Bahrein, mas aparentemente esse serviço tinha sido suspenso alguns anos antes. Por isso, tive de obter um visto para passar pela Arábia Saudita, o que custa muito dinheiro e demora muito tempo.

HW: Recomendarias viajar num navio de carga?

GH: Sim e não. Quer dizer, gostei imenso. Acho que depende do tipo de pessoa que se é. Adoro estar no mar. Adorei desligar-me do mundo exterior durante uns dias. Gostei de conviver com a tripulação. Isso dá-nos uma melhor compreensão da dimensão do mundo. Acho que viajar sem apanhar avião, seja de comboio, de navio ou de autocarro, faz-nos realmente perceber o quão grande e também o quão pequeno o mundo é.

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Não percas a parte II, onde o Graham explica em pormenor porque é que não usou aviões nas suas viagens, dá dicas para poupar dinheiro e fala sobre viajar sozinho!

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